
No final do século XX, no bairro da Lapa nasceu no Rio de Janeiro uma verdadeira obra-prima da arte de rua. Foi na Rua Manuel Carneiro, popularmente conhecida como Escadaria do Convento de Santa Teresa, que o artista chileno Jorge Selarón transformou o espaço ao colar pequenos fragmentos de cerâmica nas cores da bandeira do Brasil. Com o tempo, essas cores foram abraçadas pelo vermelho vibrante e adornadas com azulejos temáticos de diversos países.
No entanto, poucos percebem à primeira vista que a obra vai além das cores festivas. Em meio às composições, aparecem repetidamente desenhos de uma mulher grávida com um pano na cabeça, além de autorretratos de Selarón, sempre sério, com cabelos ao vento e um bigode que remete a Salvador Dalí. Mas a jornada pelo mundo fascinante do Selarón, só se completa ao conhecer os quadros que ele pintava, vendia e presenteava. Independente do tamanho — desde pequenas peças de 13x13 cm até pinturas de um metro quadrado — o valor de sua obra não está no tamanho; reside no conteúdo.
Ao adentrar seus trabalhos, somos transportados para um universo de imagens, personagens e cenários. As cores vibrantes da escadaria cedem espaço a pinturas sobre fundo amarelo-mostarda e branco, realçadas por pinceladas vermelhas que conferem ainda mais vida às cenas retratadas. O Rio de Janeiro urbano se destaca em composições onde pessoas, objetos e situações ganham profundidade e um efeito tridimensional. Selarón retratou os morros das favelas, casas agrupadas, lajes onde crianças brincam e vistas privilegiadas da Baía de Guanabara, sempre acompanhadas pelos ícones da cidade: o Pão de Açúcar e o Corcovado. E lá está também a mulher grávida, onipresente em quase todas as suas obras, às vezes duplicada, ocupando cada espaço ao qual pertence.
Outra grande protagonista de sua arte é o bairro da Lapa, onde Selarón viveu e onde se encontra sua icônica escadaria. As ruas de paralelepípedos e os prédios do fim do século XIX aparecem sob uma perspectiva distinta da das favelas—com um olhar a partir do chão. Recorrentemente, uma torre de igreja parece aprisionada pela cidade, enquanto a mulher grávida, um cachorro e uma criança aparecem minimizados ou ocultos.
É evidente que, dentre os elementos retratados, quem domina e se destaca é essa figura feminina. No acervo do Selaron, ela é lider indiscutível, surge navegando em barcos, pedalando bicicletas, acompanhada por pássaros, cachorros e cabras. Em algumas pinturas, sua cabeça se funde à de Selarón, criando uma simbiose visual entre artista e musa.
Muitos dizem que sua obra segue padrões repetitivos—os mesmos lugares, personagens e obsessões ao longo dos anos. No entanto, essa constância em contar uma história que é e não é a mesma, a cada quadro, é um traço comum entre grandes artistas e escritores. Agatha Christie recriava situações e personagens em suas narrativas, Federico Fellini canalizava seus sonhos e traumas em todos os seus filmes, e Friedrich Nietzsche revisitou suas críticas à religião e à moral em diversas obras.
A Exposição Gabinete Selarón de Curiosidades – Os Degraus para a Gestão Compartilhada é uma valiosa oportunidade para mergulhar no universo de Jouge Selarón que começou na escadaria e se completa nas pinturas.
GERARDO JUAN MILLONE Guia de turismo e Pesquisador 14/06/2025






