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"Lancha-cadeia" vai levar turistas
A embarcação "Tenente Loretti",
que serviu ao Presídio da
Ilha Grande, será reformada
POR BARTOLOMEU BRITO - O Dia Online - 11/04/10


Uma embarcação centenária que marcou a História da Baía da Ilha Grande está perto de voltar a singrar suas águas — e numa missão muito mais nobre que a original. A lancha Tenente Moretti, construída em 1910, carregou por várias décadas condenados a cumprir pena no temido Instituto Penal Cândido Mendes. Agora, será reformada pela Prefeitura de Angra dos Reis para transportar turistas pelas ilhas paradisíacas. Com o motor parado, ela está ancorada.

Um importante personagem da história da Ilha Grande não poderia deixar de ser mencionado. Um personagem que ainda hoje trabalha e tem sua existência dedicada à Ilha Grande, marcada por incontáveis missões de todos os tipos. Ele tornou-se querido pela comunidade da Vila Abraão e marcou a história. Trata-se do “Tenente Loretti”, um velho barco cargueiro, de madeira, construído em 1910, pertencente a Marinha Brasileira que o doou para o Governo do Estado.

Em 1937 foi transferido para a Ilha Grande onde operou no transporte de material e mantimentos para a construção do presídio de Dois Rios, direto da cidade do Rio de Janeiro para a Ilha Grande em viagens semanais. Aquelas árduas missões duraram até 1942. Participou de várias missões de salvamento e resgate e serviu ao presídio Cândido Mendes no transporte de soldados, presidiários, alimentos, combustíveis e cargas diversas. Transportou muitos turistas e moradores da ilha. Presenciou mortes e nascimentos. Atualmente serve ao Corpo de Bombeiros.






“É como se a lancha fosse minha filha. Ela tem de retornar ao mar! Tenho certeza de que será de grande utilidade ainda por muitos anos”, atesta Constantino Kocotoz, 76, que está há seis décadas à frente do leme da Tenente Moretti. Ele já perdeu a conta de quantas vezes cruzou a baía. A maioria, garante, foi a serviço da Justiça, com presos trancafiados nos porões da embarcação.

O vice-prefeito de Angra, Essiomar Gomes, garante que a lancha voltará às atividades muito em breve e que, além de fazer passeios pela baía, o barco será muito útil nos nos procedimentos emergenciais.

Reforma há seis anos

Em 2004, o Corpo de Bombeiros gastou R$ 40 mil numa reforma emergencial e usava a Loretti em salvamentos. Agora, a lancha também estará à disposição da prefeitura.

A lancha não apenas serviu de ‘camburão’ para transportar presos. A embarcação também foi fundamental para a construção do presídio, na década de 1930 — quando passou da Marinha de Guerra, que a construiu na Praça Mauá, para o Ministério da Justiça.

Quando o Cândido Mendes estava a pleno vapor, a Tenente Moretti saía diariamente do Cais de Mangaratiba e gastava duas horas e meia numa lenta e nauseante viagem até a Ilha Grande. Era necessário ter estômago forte para não enjoar com o balançar das ondas.

A travessia também era tensa. No porão, onde os presos ficavam, soldados da Polícia Militar armados de fuzis e metralhadoras faziam a escolta. No convés, outros policiais não tiravam os olhos da água, atentos para qualquer aproximação suspeita — havia o temor de haver tentativa de resgate.

‘Tripulação’ ilustre a bordo

Criminosos que aterrorizaram o Rio na primeira metade do século passado, Carne Seca e Madame Satã viajaram várias vezes na Tenente Loretti.

MADAME SATÃ
Ele era um negro de poucas palavras, que não gostava de brincadeiras e adorava vestir coletes e camisas de seda. O dândi pernambucano João Francisco dos Santos, vulgo Madame Satã, foi um dos mais célebres bandidos que o Rio de Janeiro já conheceu. Homossexual assumido e perito na navalhada, o que mais adorava era surrar policiais. Sedutor, conquistou a amizade de gente famosa, como os cantores Noel Rosa e Francisco Alves, mas se vangloriava de ter matado com uma rasteira um dos maiores gênios do samba, Geraldo Pereira. Apesar disso, o cartunista Jaguar disse dele: "Foi o meu herói e melhor amigo". A história desse transgressor com T maiúsculo, que nasceu em 1900 e passou 27 anos mofando atrás das grades, deu um dos melhores filmes brasileiros dos anos 70, A Rainha Diaba, e voltará a ser contada num longa-metragem com estréia prevista para este ano.


Presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos, o jornalista Fernando Gabeira e o compositor Carlos Imperial, também cruzaram a Baía da Ilha Grande no porão da lancha rumo ao presídio, no auge da ditadura militar.

Contraventores do jogo do bicho, comerciantes acusados de fraude, taxistas desonestos e até prostitutas — alvo do presidente Dutra — foram outros ‘tripulantes’.